QUARTO DO PÂNICO
Não abro os olhos. Não levanto, apesar da claridade tentando invadir meu quarto pela janela trancada. Não tenho ânimo e não pretendo sair. Queria voltar para o que eu estava fazendo, quando dormia, no lugar onde estava e as pessoas com quem eu estava. Mas eles sumiram como fumaça, virando lembranças e depois ... esquecimento. Lá no fundo penso que ainda consigo sentir o cheiro, aroma, o sabor, gosto daquilo que era somente dentro de minha própria cabeça. Será que é realmente apenas um pequeno e inofensivo sonho ou eu estava em outra realidade, em outro espaço da matéria? Sinto que lá sou mais feliz. Não levanto, me recuso. Não vou trabalhar hoje. Não quero ver pessoas, preciso me afastar das pessoas. As pessoas fazem muito mal. Preciso encontrar um jeito de voltar para o espaço onde eu era etéreo, perfume, ideia. Eu não quero mais sair de casa, eu não gosto de sair de casa. Quando preciso sair, perco as forças, fecho a porta, apago as luzes e não saio. Não saio, fico deitado até meu corpo unir-se definitivamente ao lençol, ao travesseiro, cruzando a linha do algodão e da espuma, tornando-se uma coisa só. Até que o colchão seja abandonado em um terreno baldio e depois esquecido pela eternidade. Eu não gosto de sair de casa, eu tenho medo de sair de casa, eu tenho medo de pessoas, eu não gosto de pessoas.